Ali está uma curva. Tudo o que não vemos é mistério. Dá
medo. Mas instiga. Queremos sempre ver o que tem por trás. Então avançamos.
É isto o que é a vida: uma descoberta constante. Olhamos
para o futuro e um nada enorme se desenha. Os mais cautelosos dirão que não se
deve andar no escuro. Que o que não é conhecido deve ser evitado. Ainda bem que
ninguém é igual. Eu não concordo.
Devemos nos aventurar. Quem não se aventura, não chega lá.
Uma vez, quando era bem pivete ainda, eu e meu grupo de
amigos peraltas da escola nos defrontamos com uma caverna. Onde hoje é o estádio
municipal em Salto, cidade onde moro desde os seis anos, havia uma mata enorme. Por debaixo dela uma fonte jorrava água
o suficiente para formar um riacho. As águas corriam brandas no escuro da
caverna.
Eu estava na segunda série do antigo primário, hoje ensino
fundamental. Estudava no Tancredo, onde descobrira, nas minhas explorações de
menino levado, um porão escuro também.
Ficava debaixo de um piso de tiras de madeira grossa das
classes. Meu objetivo era ver as meninas de saias. Uma curiosidade quase maluca.
Ficava imaginando como se vestiam além das saias e se havia as que não se
vestiam por baixo. Quando estávamos quase descobrindo, a diretora nos flagrou. Fomos
todos para a diretoria.
Aquele mistério me intrigava. Todos os mistérios me intrigam.
Sou inquieto por natureza.
Diante da caverna da mata onde hoje é o estádio, disse aos meus companheiros:
- Vamos?
Eles tinham medo, mas foram.
Entramos cautelosos, com receio de cobra e outros peçonhentos.
Sabíamos que, se fôssemos pegos por algum deles, não teríamos chance. Até alguém conseguir
chegar lá, já teríamos morrido.
Era uma decisão difícil, mas o nosso senso de certo e errado
e de perigo ainda estava em formação. Que bom para nós.
Quando chegamos à água, parecia que havíamos nos transformado nos aventureiros de
“Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas” em busca da fonte da
juventude. Nadamos e bebemos água naquele riacho por um longo tempo e nos sentíamos mais novos ainda. Esquecemos
das cobras e dos outros peçonhentos.
Até que um dos integrantes do grupo feriu o pé direito em um
caco de vidro. O sangue vertia rápido. Parecia água.
- Está doendo?, perguntei.
João disse que sim e se desesperou. Começou a chorar. A pedir pela mãe.
Não sabíamos se era grande mesmo o ferimento. Mas tínhamos a
certeza de que teríamos de sair dali para salvarmos o nosso amigo. Nos revezamos
para carregá-lo nas costas. Ele chorava muito. Dizia que o sangue não parava. Acho
que andamos uma hora ou mais.
Saíamos perto de 17 horas da escola.
Já estava escurecendo fora da caverna também quando saímos de lá. O sol morria lentamente no horizonte.
Nunca senti tanto desespero e tanta ansiedade.
No trajeto, para salvar o João, passava um filme na minha
cabeça: ah, se não tivéssemos entrado, se não tivéssemos nos distraído, se não
tivéssemos nos esquecido de levar alguma coisa para iluminar.
Mas agora era tarde.
Depois dos arrependimentos, veio a culpa.
Achava que deveríamos ser condenados pela morte do João.
Ele iria morrer. Nós não conseguiríamos salvá-lo. A culpa maior era minha,
porque fui eu quem comandou a entrada na caverna.
Mesmo atormentado por todos esses pensamentos, não parei de
carregar o João e de comandar os demais para que saíssemos de lá.
Eu fui quem mais carregou.
Eu fui quem mais carregou.
Como sempre pensei, havia um mistério à frente e precisávamos
enfrentá-lo. Agora era o que aconteceria após mais aquela travessura.
Quando saímos da caverna, vimos que o ferimento era pequeno
e que boa parte do sangue que vertia como imaginávamos não passava de água.
Sim, a água do riacho se misturou ao sangue e o nosso desespero
se encarregou do resto.
João se salvou, virou médico e não mora mais em Salto.
João se salvou, virou médico e não mora mais em Salto.
Ficou uma coisa importante: nesse episódio o meu senso
de certo e errado e de perigo amadureceu para sempre, mas não perdi a inquietação diante do mistério.
Quem não se aventura, não conhece o futuro.
Quem não se aventura, não conhece o futuro.

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