Desde o início da quarentena ou do isolamento social por
causa do coronavírus, vivo uma pressão enorme de gente querendo definir como
devo aproveitar o meu tempo livre.
Acho isso um absurdo, afinal não estou com tempo livre.
Quarentena ou isolamento social, não importa qual prefiram, significa estar
preso, recolhido, sem liberdade.
Isto se parece com aqueles momentos em que aparece um
especialista na tevê para explicar como você deve gastar o seu décimo-terceiro
salário. O dinheiro nem saiu e o cara está lá: faça isso, faça aquilo. Ora,
ora. Ajudar a ganhar ninguém vem, né? Eu gasto como quiser e quando quiser e
não me venham com chorumelas.
Um desses dias de quarentena, não sei exatamente qual (já
perdi a noção do tempo com esse isolamento), fiz um protesto. Desliguei a tevê
com as instruções para exercícios excelentes sobre como manter a forma, deitei
no chão esparramado e dormi sem culpa ou medo.
Pode parecer que isso não seja protesto, mas eu não durmo
como todo mundo não. Durmo pouquíssimas horas durante a noite. Pegar no sono sem
mais e me entregar aos sonhos, como fiz, só quando era adolescente, um tempo em
que mais comia, bebia e dormia que qualquer outra coisa. Era quase uma quarentena
ou isolamento social, mas que acontecia, felizmente, só depois de curtir a
balada até as 6 da manhã.
Acordei renovado e com muita disposição física e mental,
muito melhor do que depois de fazer exercícios para me manter em forma. Pra que
manter a forma? Nem sei se vai ter jogo.

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