sábado, 16 de novembro de 2019

Ninguém sabe da vida de cada um

Há muito tempo, quando ainda era adolescente, morei em conjunto de casas conjugadas em Salto, que chegaram a ter o nome de cortiço, mas que não passavam, para nós, de simples imóveis geminados.

Era o Rei da Vila.

A construção ficava na região próxima onde hoje funciona a Unimed e que na época era por onde a cidade crescia.

Não passavam de vinte casas.

De qualquer forma, sendo cortiço ou casas geminadas, um traço que era comum naquele lugar e que foi marcante sempre era a fofoca. Nesse local todo mundo sabia da vida de todo mundo.

Lembro que um dos vizinhos era um padeiro. Rapaz jovem ainda, vindo do nordeste, ele queria vencer e formar uma família, mas nunca conseguiu. E todo mundo falava mal da vida dele por isso.

O coitado não podia nem se defender. Trabalhando a noite sempre, estava com sono frequentemente e passava o dia dormindo. Ele não conseguia acompanhar a vida da comunidade que habitava ali.

Essa era, aliás, a razão para o falatório contra ele.

Divaldo ficou famoso na comunidade por perder namoradas.

A cada época ele era trocado por outro.

O problema era um só: não conseguia dar assistência. Estava sempre trabalhando e elas queriam sair. Para não ser machista, ele não reclamava. Quando saiam, encontravam gente com mais tempo.

Quem não dá assistência abre concorrência.

O coitado, às vezes, nem era avisado que fora trocado.

Uma das namoradas deixou que ele comprasse móveis a prestação e que desse até entrada em uma casa para viver com ela.

Só aí ele foi avisado que tinha sido passado para trás.

O padeiro ficou tão desconsolado que nem foi trabalhar. No dia seguinte não tinha pão para ninguém. A padaria o demitiu.

Mais do que a assistência, é preciso estar atento.



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