segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Destino: cemitério

Paulistano entende bem de congestionamento. Eu não. Nasci no interior, na pequena cidade de Pederneiras, centro geográfico do Estado de São Paulo, uma grande produtora de cana.

Lá ou aqui em Salto, onde moro hoje, a 100 km de São Paulo, não há congestionamentos. No máximo, trânsito lento em dia de chuva.

Mas no último dia 2 de novembro, Dia de Finados, enfrentei o meu primeiro congestionamento a bordo de um carro a serviço de aplicativo.

Ia visitar o cemitério para prestar homenagem ao meu pai e meu irmão falecidos e parecia que a cidade inteira tinha tido a mesma ideia.

O congestionamento surgiu não só pelo volume de carros, mas também porque a maioria queria parar no pequeno estacionamento do cemitério, que comporta 20 veículos se tanto.

O carro em que estava ficou cercado. Não podíamos ir nem para frente nem para traz. Sem o que fazer, o jeito foi conversar. O motorista passou a contar então um episódio envolvendo cemitério.
Disse que certa vez um passageiro tomou o serviço e pediu para deixá-lo no cemitério. Visitaria o pai, morto havia dois meses.

O homem relatou ao motorista todo o ódio que tinha do médico que atendeu o pai. Para ele, o profissional deixará o paciente morrer.

- Ele chorou enquanto falava. Pediu para buscá-lo em uma hora, disse o motorista, relembrando o episódio com olhos distantes.

O condutor voltou no prazo combinado, mas o passageiro não estava. Ele já ia deixar o local quando viu o homem sobre um túmulo.

Com cuidado, desceu do carro e foi buscá-lo. O passageiro não o reconhecia mais. Ele não quis sair do local.
E disse:

- Eu moro aqui.

- Me deu arrepios quando ouvi isso. Não gosto de cemitério, gente morta. A frase parecia revelar algum tipo de fantasma, afirmou.

- Mas não passava de uma depressão profunda, disse olhando fixamente para mim, como se tentasse ver o passageiro novamente.

- Ninguém mora no cemitério estando vivo, disse eu.

- Sim, ninguém. Peguei o passageiro pelo braço e o trouxe para o carro, afirmou o motorista. Ele se sentou e fechou os olhos.

Mais tarde...

- Quando o entreguei em casa, parecia que estava em outro mundo.

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