domingo, 10 de novembro de 2019

Recepção à altura

O conhecido livro “O Pequeno Príncipe”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, é enfático quando diz que somos responsáveis por tudo aquilo que cativamos ao longo da vida.

Se prestarmos atenção, esta é uma máxima que merece apreço. 

Afinal, quantas pessoas cativamos durante a nossa trajetória, seja no trabalho ou em atividades sociais? 

De fato, isto não se aplica apenas à história de amizade entre um homem frustrado por ninguém compreender os seus desenhos e um principezinho de cabelos dourados, que vive em um asteroide.

Aplica-se a todas as relações.

Ao falar disso, lembro-me de quando fui convidado a ser o editor de política do jornal Correio Popular, em Campinas, à época (década de 90) o 19º diário do país e o mais respeitado da região.

Vindo da Folha de São Paulo, cheguei ao jornal respaldado pela admiração que todos tinham pelo matutino paulistano.

Herdei dois repórteres: um rapaz e uma moça.

Ambos foram simpáticos e receptivos na esteira da minha história.

Pautados, saíram para executar as reportagens.

Embora bom profissional, o rapaz não produziu nada do que pedi. Como a edição era uma atividade mais noturna, achei que ele tivesse ido embora e refiz o texto da reportagem dentro do que havia pedido.

Ocorre que o rapaz era casado com uma editora da casa e teve acesso ao texto de outra sala fora da redação assim que o editei.

Imediatamente, ele veio até mim para questionar. Achava que eu o desrespeitava, profissional com anos de experiência que era, ao refazer o texto. Tentei explicar que ele não cumprira a pauta, mas os ânimos se exaltaram e ambos gritávamos a certa altura.

Como a situação se deteriorara, para não perder o comando, disse a ele que existia uma hierarquia que ele deveria ter obedecido. Portanto, o texto ficaria com os meus ajustes. Assim foi.

No dia seguinte, mais calmo e mais reflexivo, ele me ouviu a respeito da necessidade de seguir a pauta. Minha antecessora não fazia as mesmas cobranças e ele se acostumara a agir como agira.
Celebramos a paz.

Trabalhei por três anos no Correio e a minha amizade com esse repórter só cresceu nesse período.

Tempos depois de eu ter deixado o jornal, o repórter galgou o cargo de editor-chefe e me convidou, pela experiência que adquiriu comigo, para fazer uma edição especial sobre o aniversário de Indaiatuba.

Talvez não tivéssemos nos falado mais se não nos entendêssemos.

Como disse no início, o repórter era um bom profissional. O comando precisa de ajustes muitas vezes. Mas é só conversando que se entende. 

Depois ficam o respeito, a admiração e a lembrança.

Eu tenho tudo isto por esse repórter e ele certamente tem por mim.

Nós somos responsáveis por aquilo cativamos.

Esta é a lição mais importante para todos os dias, para todas as pessoas e para todos os lugares.

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