quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Telefone do inferno

O telefone tocava no ônibus exatamente quando havia aquele silêncio sepulcral, no qual quem tem sono dorme e quem não tem também.

Eu viajava no Cometa para trabalhar em São Paulo, como a maioria ali, e a volta era para descansar.

Mas era um toque diferente, estridente, irritante.

Ninguém em sã consciência escolheria um toque desses, mas a figura escolheu.

Estava sentado algumas poltronas atrás. A senhora do lado vira para mim e solta os cachorros:

- Onde já se viu deixar o som alto assim. Não respeita o sono alheio. É um absurdo.

Não comentei, afinal não tinha me incomodado a esse ponto e não conhecia nem a senhora nem a pessoa dona do celular com som estridente.

O celular tocou de novo e agora percebi a estridência e o incômodo causado.

A mulher do outro lado da corredor concordou com a minha companheira de poltrona:

- Gente sem noção. Abuso, é isso que é. Me irrita

Outra vez o telefone tocou. Como das outras vezes, a chamada ia até o final. Sem atendimento, claro.

O senhor logo atrás da mulher do outro lado do corredor também quis dar opinião:

- Não sabe conviver com pessoas. Está acostumada ao sítio, certamente. Absurdo.

Outros mais também falaram mal do celular com som estridente e falaram alto para a pessoa ouvir.

O celular tocou de novo e a cena se repetiu.

Um senhor mais à frente interveio diretamente com a dona do celular, tal era a sua irritação:

- A senhora pode atender ou baixar o volume do celular? Aqui todos trabalham e querem dormir.

A senhorinha dona do celular, parecendo agradecida por um milagre, responde sem vergonha alguma:

- Moço, eu não sei mexer nisso. É do meu filho. Quis que eu trouxesse. Deve ser ele ligando, mas não sei atender. O senhor pode me ajudar?

O homem ajudou e acabaram-se os nossos problemas. Às vezes reclamar é mais cômodo, mas não resolve. Nada substitui o diálogo.

Resolver problemas exige envolvimento.

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