O telefone tocava no ônibus exatamente quando havia aquele silêncio sepulcral, no qual quem tem sono dorme e quem não tem também.
Eu viajava no Cometa para trabalhar em São Paulo, como a maioria ali, e a volta era para descansar.
Mas era um toque diferente, estridente, irritante.
Ninguém em sã consciência escolheria um toque desses, mas a figura escolheu.
Estava sentado algumas poltronas atrás. A senhora do lado vira para mim e solta os cachorros:
- Onde já se viu deixar o som alto assim. Não respeita o sono alheio. É um absurdo.
Não comentei, afinal não tinha me incomodado a esse ponto e não conhecia nem a senhora nem a pessoa dona do celular com som estridente.
O celular tocou de novo e agora percebi a estridência e o incômodo causado.
A mulher do outro lado da corredor concordou com a minha companheira de poltrona:
- Gente sem noção. Abuso, é isso que é. Me irrita
Outra vez o telefone tocou. Como das outras vezes, a chamada ia até o final. Sem atendimento, claro.
O senhor logo atrás da mulher do outro lado do corredor também quis dar opinião:
- Não sabe conviver com pessoas. Está acostumada ao sítio, certamente. Absurdo.
Outros mais também falaram mal do celular com som estridente e falaram alto para a pessoa ouvir.
O celular tocou de novo e a cena se repetiu.
Um senhor mais à frente interveio diretamente com a dona do celular, tal era a sua irritação:
- A senhora pode atender ou baixar o volume do celular? Aqui todos trabalham e querem dormir.
A senhorinha dona do celular, parecendo agradecida por um milagre, responde sem vergonha alguma:
- Moço, eu não sei mexer nisso. É do meu filho. Quis que eu trouxesse. Deve ser ele ligando, mas não sei atender. O senhor pode me ajudar?
O homem ajudou e acabaram-se os nossos problemas. Às vezes reclamar é mais cômodo, mas não resolve. Nada substitui o diálogo.
Resolver problemas exige envolvimento.

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