sábado, 26 de outubro de 2019

O que o Exército me fez

Aos 17 anos, eu estava pronto para ingressar na faculdade.

Seria a realização de um sonho. Afinal, nenhum dos meus cinco irmãos havia conseguido chegar lá até então. Mas aconteceu um imprevisto que marcaria a minha trajetória para sempre.

Naquele ano, o governo decidiu impedir que trabalhadores rurais da cidade de Lins servissem ao Exército. A justificativa era de que precisava mantê-los na lavoura para produzirem mais.

Então, foram convocados todos os dispensados em outras cidades na região formada pelo eixo de Campinas a Sorocaba.

Entre esses sortudos estava eu, o mais jovem dos 12 eletricistas da extinta Eletro Metalúrgica Salto S/A e o único que enrolava motores na empresa, atividade fundamental, pois a demanda era enorme.

A condição especial levou o CEO a escrever uma carta ao comando do quartel de Lins pedindo a minha dispensa. Eu entreguei a carta nas mãos do comandante Ciro Monteiro Muzzi (me lembro do nome até hoje).

Mas, além desse dia, só pude chegar tão próximo dele na baixa um ano depois, quando ele cumprimentou um a um dos que saíam.

Servi ao Exército a contragosto nos três primeiros meses. Optei por trocar de funções nesse tempo para fugir à atividade. Cortei cabelo, fiz consertos elétricos, comida, dirigi veículos e apliquei injeções.

Tudo o que se pedia alguém que soubesse fazer, eu me lançava. Não sabia a maioria das atividades. Colocado nelas, aprendia e realizava.

Depois dos três meses, aceitei ser mais um recruta da turma de 1981.

A partir disso, me empenhei e fiz curso para cabo. Só não exerci a função porque teria de me engajar no ano seguinte.

Quando voltei ao trabalho, havia outro eletricista no meu lugar. Passados os 45 dias de estabilidade, fui demitido por ser o único solteiro do time e tive de me reinventar para pagar o curso da faculdade.

Desenvolvi cinco atividades diferentes e me formei jornalista.

Há quase 40 anos trabalho nessa área e deixei a eletricidade. Se não fosse a experiência do quartel, não teria conseguido.

Nem sempre o que parece o pior cerceia os nossos caminhos.

Temos de nos adaptar a tudo e enfrentar as dificuldades com criatividade e disposição, pois elas não passarão se não as enfrentarmos.

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