Após chegar a hora de dormir, ela dizia: não desçam da cama.
Se fizerem isto, o monstro que fica debaixo da cama pega o pé de vocês. Eu
tinha tanto medo que não deixava o pé para fora da coberta nunca.
Funcionava com todos.
Mas não era só o medo de descer da cama. A gente tinha medo
do monstro em qualquer situação.
Uma noite fiquei tremendo ao notar um movimento.
Vi por uma nesga de luz que vinha da janela da cozinha,
contígua ao quarto. Havia uma escada encostada na entrada. Olhei furtivamente.
Tive a nítida impressão de que era um homem vestindo roupa branca.
Cutuquei meu irmão mais próximo, mas ele tinha tanto medo
quanto eu.
A saída foi gritar pela nossa mãe. Ela acendeu as luzes e
vimos que o monstro não passava de uma toalha de banho sacudida lentamente pelo
vento da madrugada.
Naquele dia, aprendi que o medo agiganta os perigos de forma
desproporcional. Se não o enfrentarmos, não sairemos da cama e nunca chegaremos
a lugar algum.
Hoje, se tenho medo, vou com medo mesmo.

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