O carro seguia e um silêncio incômodo de não ter o que falar ou talvez de não querer falar algo sem sentido dominava.
Até que o rádio anunciou que era o Dia do Livro com a frase "Os livros não mudam o mundo: quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas".
O motorista de aplicativo aproveitou e me perguntou:
- Algum livro mudou o senhor, doutor?
Eu disse:
- Todos os livros mudam a gente. Nenhum mudou você?
- Eu não sei doutor. Não sou muito de ler. Faço palavras cruzadas só.
Eu disse:
- Os livros mudam a nossa vida não só pela leitura. As histórias podem chegar até nós por vários meios. Um exemplo é quando viram filme e a gente vê e se identifica com eles no cinema.
- Ah, assim eu já tive um filme que mudou a minha vida, disse ele.
- Verdade?, fiquei empolgado para saber.
- Sim, doutor. Teve um dia que fui eu mais a Clotilde, a minha senhora, assistir a um filme chamado "E o vento levou".
- Esse filme é baseado em um livro de Margaret Mitchell. Mas no que mudou você?, perguntei.
- Ah, a Clotilde viu o filme e aprendeu que podia ter outro se quisesse. Ela gostava mais do meu primo. Ficou com ele.
- Isso não tem a ver. Falo de mudança cultural, de conceitos.
- Doutor, o vento levou meu casamento. O senhor não acha que isso é uma mudança grande. Eu gostava dela.
- Tem razão, admiti.

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