terça-feira, 29 de outubro de 2019

E o vento levou...

O carro seguia e um silêncio incômodo de não ter o que falar ou talvez de não querer falar algo sem sentido dominava.

Até que o rádio anunciou que era o Dia do Livro com a frase "Os livros não mudam o mundo: quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas".

O motorista de aplicativo aproveitou e me perguntou:

- Algum livro mudou o senhor, doutor?

Eu disse:

- Todos os livros mudam a gente. Nenhum mudou você?

- Eu não sei doutor. Não sou muito de ler. Faço palavras cruzadas só.

Eu disse:

- Os livros mudam a nossa vida não só pela leitura. As histórias podem chegar até nós por vários meios. Um exemplo é quando viram filme e a gente vê e se identifica com eles no cinema.

- Ah, assim eu já tive um filme que mudou a minha vida, disse ele.

- Verdade?, fiquei empolgado para saber.

- Sim, doutor. Teve um dia que fui eu mais a Clotilde, a minha senhora, assistir a um filme chamado "E o vento levou".

- Esse filme é baseado em um livro de Margaret Mitchell. Mas no que mudou você?, perguntei.

- Ah, a Clotilde viu o filme e aprendeu que podia ter outro se quisesse. Ela gostava mais do meu primo. Ficou com ele.

- Isso não tem a ver. Falo de mudança cultural, de conceitos.

- Doutor, o vento levou meu casamento. O senhor não acha que isso é uma mudança grande. Eu gostava dela.

- Tem razão, admiti.

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