quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Funileiro virtual

Herança sempre divide herdeiros.

Quando se trata de uma empresa então, muito mais. Há os que querem continuar o sonho de um pai, um avô ou até mesmo um bisavô. Mas há os que preferem vender tudo e fazer dinheiro.

Douglas, um amigo funileiro que conheci por acaso ao fazer uma pergunta sobre o preço do reparo de um para-choque, viveu a segunda hipótese, após a morte do dono da oficina em que trabalhava.

Os herdeiros resolveram vender tudo assim que o enterro terminou.

- Ninguém queria continuar o negócio porque ninguém entendia nada dele. Só eram parentes. Nunca acompanharam nada do que o velho Alfred havia construído, disse o funileiro quando me contou a história.

De repente, Douglas estava desempregado após quase 40 anos ininterruptos servindo aquela funilaria.

O desespero foi o primeiro. Perdeu o sono, ficou com o estômago embrulhado, a garganta seca. Não havia caminhos.

Uma pessoa com 40 anos de profissão hoje no Brasil dificilmente se recoloca no mercado. Havia uma família para sustentar ainda. Após educar e encaminhar os filhos, vieram os netos.

Mas Douglas encontrou a saída.

Conhecido na cidade e com uma atuação invejada, ele passou a alugar as oficinas de outros funileiros pagando uma pequena taxa. A estratégia deu tão certo que hoje ele não quer outro plano de negócio.

Consegue faturar 80% do que conseguia antes, mas não tem 70% dos problemas que administrava como dono do barracão.

A oficina virtual de funilaria é um sucesso.

Quem não se reinventa, não se sustenta.

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